Dermatite Atópica: o que é e como tratar?
- Leonardo Bonifacio
- 5 de jan. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 10 de jan. de 2024
A Dermatite Atópica é uma doença multifatorial que acomete pessoas com atopia (alergia). Geralmente surge na infância, e por ter caráter crônico e recidivante, causa grande aflição no paciente e familiares. Pode comprometer significativamente a qualidade de vida, sendo muito importante o acompanhamento e tratamento corretos da condição. Você sabe o que é Dermatite Atópica e como tratar?

O que é a Dermatite Atópica e como tratar?
A Dermatite Atópica (DA) é uma doença multifatorial, ou seja, ocasionada por vários fatores em conjunto. Geralmente aparecem em pessoas com pré-disposição genética para atopia (alergia), que tem parentes com doenças alérgicas. Na maioria das vezes se inicia na infância, e pode ser o primeiro sintoma da chamada Marcha Atópica, em que o paciente desenvolve umas série de doenças alérgicas, podendo apresentar a DA, alergia alimentar, rinite e asma.
É causada por um conjunto de fatores: a pele, nossa barreira cutânea que protege nosso organismo do mundo exterior, apresenta alterações em algumas células e proteínas de sua composição, levando a uma diminuição da função da barreira. Além disso, a pele cria menos substâncias que são responsáveis pela hidratação natural da pele, e que ajudam a formar a barreira. A pele se torna seca, o que é uma das principais características da doença, devido à essa diminuição da produção de substâncias hidratantes, e também, devido a maior perda d'água que a pele lesada tem.
Também ocorrem uma série de alterações imunológicas, em diversas células e substâncias que fazem parte desse sistema, ocasionando algumas modificações na pele, além de criar um componente inflamatório crônico na pele, levando ao agravamento das lesões e perpetuação da doença.
Somado à isso, os fatores externos podem agravar a doença. Como a barreira não funciona da maneira adequada, a pele fica mais propensa à agentes irritativos, à substâncias que causam alergia, à poluição, que penetram mais facilmente através da pele lesionada, levando a piora da doença. Também ocorre uma facilidade maior de a disbiose, que é uma alteração das bactérias normais que se encontram na pele de todo indivíduo, podendo ocasionar o aparecimento de bactérias nocivas à pele, que podem gerar, além do aumento do processo inflamatório, infecções secundárias nas lesões.
Todas essas alterações em conjunto levam à uma pele mais seca, uma barreira que não funciona adequadamente e uma maior facilidade de penetração de agentes externos na pele. A pele seca, mais as alterações imunológicas e o processo inflamatório, levam a um prurido (coceira), intensos, que pode comprometer significativamente a qualidade de vida do paciente, atrapalhando o sono, trabalho, estudos e vida social.
É importante notar que o prurido (coceira) na grande maioria das vezes está presente e é um dos pontos importantes que caracterizam a doença. Se não houver coceira, o diagnóstico de DA é improvável.
Como é o quadro clínico da Dermatite Atópica?
O quadro clínico é bastante variável, a depender da gravidade da doença. A doença pode ser leve, com lesões limitadas e pouco impacto na qualidade da vida, até mesmo condições graves, com lesões muito espalhadas e muitos sintomas associados.
É caracterizada pelo aparecimento de eczemas (lesões avermelhadas, tipo placas, com descamação e coceira, de aspecto "grosseiro"), que surgem principalmente em regiões de dobras (em frente ao cotovelo, atrás do joelho, etc.), mas podem aparecer por todo corpo. A pele como um todo, mesmo nos locais em que não há eczemas, é seca, quadro chamado de xerodermia. O eczema, como dito anteriormente, tende a causar muito prurido (coceira), e o paciente pode apresentar lesões de arranhadura pelo ato de coçar.
Em bebês e crianças mais novas, as lesões podem aparecer preferencialmente no rosto, joelhos e cotovelos, enquanto as áreas de dobras são mais frequentes em crianças maiores e adultos.
Como tratar a Dermatite Atópica?
O tratamento da DA envolve uma série de cuidados, medicações e orientações. O tratamento depende da gravidade da doença e da resposta ao tratamento.
O princípio básico do tratamento da DA é a hidratação. Como explicado, a pele do paciente com DA é seca, desidratada, e esse aspecto é parte fundamental da característica da doença e parte da causa da maioria dos sintomas. A pele deve ser hidratada diariamente, de preferência logo após o banho, com o uso de hidratantes adequados. Os hidratantes indicados tem a função de hidratar, são hipoalergênicos, e também tem a função de ajudar a criar uma barreira mecânica na pele, que evita tanto a perda d'água natural que ocorre nesta pele, como evita a entrada de substâncias externas. A orientação para que o hidratante seja usado logo após o banho, com a pele ainda úmida, visa aumentar ainda mais a hidratação, e manter a umidade que se encontra na pele pós banho por mais tempo. Ou seja, o hidratante deve ser usado com a pele ainda úmida (pode-se secar o excesso), em até 5 minutos após o banho.
Em relação ao banho, também há aspectos importantes a serem orientados. O uso de sabonetes tira a camada de gordura natural da pele, que já é naturalmente menor em pacientes com DA. Dá-se preferência a usar sabonetes líquidos apropriados, que tem um PH mais parecido com o da pele, e devem ser usados em pouca quantidade, suficiente para limpar o corpo. O número de banhos também precisa ser limitado, pois a cada banho vai-se diminuindo ainda mais a barreira de gordura natural da pele. Dependo de cada caso, e se tiver necessidade de mais de um banho por dia, pode-se optar por não usar sabonetes em todos os banhos, ou usar apenas nas áreas críticas (região intima, axilas, etc.). Os banhos devem ser curtos, com temperatura d'água amena, evitando o uso de água quente. Sabonetes bactericidas, detergentes estão totalmente restritos, pois ressecam demais a pele.
Em casos mais graves, pode ser feita uma técnica chamada de Pijama Molhado. Antes de dormir, após o banho, é passado o hidratante conforme orientado, e usa-se um pijama de manga comprida, que é umedecido, e vestido. Por cima do pijama molhado, é usada mais uma camada de roupa. Essa técnica tem a finalidade de aumentar a hidratação da pele, e pode ser usada nos casos mais graves de difícil controle somente com a hidratação normal.
Quanto ao tratamento, pode envolver uma série de medicações, tanto tópicas aplicadas no local, quanto orais, dependendo da gravidade dos sintomas.
É usado cremes ou pomadas de corticoide nas lesões, que tem papel de diminuir o processo inflamatório no local. Mas atenção, o uso de corticoide deve ser sempre prescrito e orientado pelo médico especialista, pois pode apresentar uma série de efeitos colaterais, principalmente se usado por longos períodos. O médico especialista vai prescrever o corticoide correto, com a potência correta e o tempo de tratamento correto.
Em alguns casos, o creme de corticoide pode ser associado ao hidratante, em mistura, e pode também ser usado na técnica do Pijama Molhado descrita anteriormente.
É importante frisar que se trata de uma doença crônica, recidivante, ou seja, que apresenta períodos de melhora e piora. A hidratação deve ser sempre mantida, mesmo nos períodos de melhora, afim de evitar que o quadro agrave, enquanto o uso do corticoide pode ser feito apenas nos períodos de piora, sempre seguindo a orientação do médico.
Existem também cremes e pomadas chamadas de imunomoduladores, que tem papel semelhante ao dos corticoide, que diminuem a inflamação local. Geralmente podem ser usadas por tempo mais prolongado que os corticoides, mas também requerem atenção e prescrição médica.
Em casos mais graves, há outros tratamentos disponíveis. Pode-se usar drogas imunossupressoras, ou sejam, que diminuem a ação do sistema imunológico, e consequentemente, os efeitos dele na doença. Destacam-se o Metotrexato e a Ciclosporina, mas cabe destacar que são medicações que podem apresentar uma série de efeitos colaterais, que necessitam de acompanhamento rigoroso durante o uso.
Por fim, existem medicações mais novas, que vem apresentando excelente resultados nos casos bem empregados, chamadas imunobiológicos. Eles agem inibindo substâncias específicas do sistema imunológico, levando a melhora da doença. O dupilumabe está atualmente aprovado para uso na DA, apresentando eficácia comprovada, e uma série de outros imunobiológicos estão em estudo e fases de teste para o tratamento da doença. Os imunobiológicos devem ser prescritos pelo médico especialista, quando indicados, necessitando de liberação junto ao plano de saúde ou ao SUS, devido ao alto custo dessas medicações.
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